NOVIDADE

Copa do Mundo 2014: uma seleção de expectativas

27

Mar

2014


Por Luiza Lourenço
E-mail: luiza.lourenco@gestaoesporte.com

 

A 76 dias para o início da Copa do Mundo, as especulações em torno desta produção aumentam e aspectos positivos e negativos envolvidos são constantemente reforçados. A organização e gestão de um evento de tamanho porte é uma tarefa complexa que abrange diversos segmentos e setores, que ganha ainda mais relevância quando tem como meta deixar legados que se sobreponham aos possíveis impactos de se sediar uma competição em nível mundial.


Movimentar a Copa do Mundo pode ser interessante para um país por muitos fatores. O estímulo ao Turismo é um deles. O Governo espera receber 600 mil turistas estrangeiros visitando o Brasil e 1 milhão de brasileiros viajando pelo país durante o torneio, segundo dados de uma matéria publicada no Uol Esportes. A nação ganha maior projeção internacional e, além de conhecerem os locais sobre os quais só têm conhecimento de maneira superficial, os turistas consomem. A expectativa é de que eles gastem 42% a mais do que normalmente gastam aqui, uma quantia que gira em torno de os R$ 6,85 bilhões durante o mês da competição, contra os R$ 11,8 bilhões deixados pelos estrangeiros no ano inteiro de 2013.¹ E há a possibilidade de que muitos retornem em outras épocas.


Outros motivos econômicos contribuem para estabelecer o aspecto positivo de se sediar um megaevento esportivo. Com a Copa do Mundo, além do setor de Turismo já citado, o setor de Prestação de Serviços também será impulsionado. Juntos, eles podem movimentar até R$142 bilhões na economia brasileira. O balanço do setor será divulgado no final do ano pelo governo brasileiro. Propondo uma comparação, a Copa das Confederações registrou rendimento de R$740 milhões e a Jornada Mundial da Juventude girou R$1,2 bilhão.


A criação de empregos para a construção dos estádios, nos setores de alimentos e bebidas, e ainda os de prestação de serviços e hotelaria é uma realidade proporcionada pelo evento no país. Só na Copa das Confederações, 24,5 mil empregos foram criados. ² O microempreendedor também fatura com a realização do evento. Até agora, micro e pequenas empresas já registram R$280 milhões em negócios, valor que pode chegar até R$500 milhões no final de julho, segundo o Sebrae, ainda de acordo com a publicação do Uol Esportes.


Para o pesquisador Vittorio Lo Blanco (2010), mais importante do que os gestores públicos promoverem as cidades internacionalmente é alcançar avanços que irão além dos jogos e promoverão a qualidade de vida, principalmente para os setores menos privilegiados da população. Investimentos em mobilidade urbana, segurança, sustentabilidade e incentivo ao esporte como um elemento de não exclusão social e um aliado à educação, entre outros, são algumas ações que trariam como resultados legados relevantes para o país, considerando os impactos de se sediar eventos de tamanho porte.


Contudo, há uma distância entre as expectativas de quando a candidatura para os eventos foram confirmadas no país e a realidade com que a organização se configura agora. Atrasos nas obras, valores de orçamentos ultrapassados e ausência de ética nos quesitos sociais têm permeado as gestões responsáveis. Constantemente, surgem denúncias e questionamentos na mídia que colocam em cheque não o sucesso da competição, mas o de todos os propósitos que vão além dela e que foram inseridos nos planos do governo desde o início. Um exemplo é esta matéria publicada pelo Estadão, que afirma que custos das obras dos estádios saltaram 263% em seis anos. (Clique aqui )

 

A realização do evento tem o potencial de mexer com um dos aspectos atribuídos aos brasileiros: a paixão pelo futebol. Em se tratando de sediar a Copa do Mundo obtendo êxitos tanto na produção quanto na competição em si, o resultado pode ser uma nação com autoestima mais realizada. Em junho de 2010, A Revista SuperInteressante publicava uma matéria afirmando que os ganhos são muito mais subjetivos que objetivos, sendo assim, os benefícios seriam muito menos econômicos e muito mais para a felicidade dos indivíduos envolvidos, os chamados Legados Intangíveis. As informações são de um estudo organizado pelo economista britânico Stefan Szymanski e seu colega Georgios Kavetsos (2010), que pesquisaram dados de felicidade da população na Europa Ocidental entre 1974 e 2004, e descobriram que depois que um país recebe um torneio como o mundial ou a Eurocopa, os habitantes se declaram mais felizes. De acordo com a matéria "a razão disso, ao que parece, é que sediar um mundial faz com que os habitantes sintam-se mais conectados uns aos outros. Uma copa faz isso mais do que qualquer outro projeto que possa existir nas sociedades modernas.

 

Além disso, a nação anfitriã provavelmente ganha em autoestima pelo fato de ter organizado o torneio".
Entretanto, a comoção da população pelo evento está aquém do esperado pelos organizadores, vide os protestos que começaram em junho do ano passado e os recentes, que aconteceram durante essa semana em São Paulo. Com o lema "Não vai ter Copa", parte da população não se mostra tão satisfeita assim com o evento e cobra mais responsabilidade com as demandas de infraestrutura, como transporte e com os gastos públicos. Se em 2008, 79% da população se declarava a favor da efetuação da competição no país, atualmente 52% apoiam e 38% se posicionaram contra. Em 2008, eram apenas 10%, segundo dados da pesquisa realizada pelo instituto Datafolha.


As dificuldades na gestão e na associação de diversos conhecimentos em prol de uma administração mais democrática e transparente, o andamento das obras, os altos preços dos ingressos e os gastos exacerbados contribuem para o sentimento de distanciamento entre a população e o evento. O desafio está lançado. Aos amantes do futebol, a oportunidade de ter o Mundial acontecendo no quintal de casa é uma oportunidade única, contudo há muitas ressalvas, talvez mais que exaltações. Teremos, sim, a Copa do Mundo no Brasil, mas a reflexão que fica é: Copa para quem?


Imagens de divulgação

 

¹ ² Dados disponíveis em 20 de março de 2014: http://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2014/03/06/veja-sete-argumentos-para-defender-a-copa-do-mundo-no-brasil.htm?fb_action_types=og.recommends&fb_source=other_multiline


Referências bibliográficas e sugestões para aprofundamento:


LO BIANCO, Vittorio Leandro Oliveira. O legado dos megaeventos esportivos em questão: as mudanças ou as continuidades na cidade Rio de Janeiro pós-sede. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento do Instituto de Economia da UFRJ. 2010

http://super.abril.com.br/esporte/copa-deixa-voce-mais-pobre-mais-feliz-573075.shtml


http://br.esporteinterativo.yahoo.com/noticias/pesquisa-aponta-que-apenas-metade-dos-brasileiros-apoiam-copa-do-mundo-no-pa%C3%ADs-175245989.html

 

http://www.lancenet.com.br/copa-do-mundo/Tribunal-Contas-DF-superfaturamento-Copa_0_1097290479.html

 

 


COMENTE ESSA NOVIDADE
ÚLTIMAS NOTÍCIAS
A Gestão do Esporte na Fábrica de Atletas
A Gestão do Esporte na Fábrica de Atletas
O caminho até os Jogos Olímpicos: considerações sobre legados esportivos
O caminho até os Jogos Olímpicos: considerações sobre legados esportivos
Aspectos do Comportamento Motor: por que o gestor deve estar atento a isto?
Aspectos do Comportamento Motor: por que o gestor deve estar atento a isto?
A questão estrutural que envolve a relação entre as entidades esportivas
A questão estrutural que envolve a relação entre as entidades esportivas
GALERIA

Conheça os Profissionais GestãoEsporte.com

PUBLICAÇÕES
publicado em 29 de junho de 2014
Vol. 4, No 1 (2014) Revista Intercontinental de Gestão Desportiva<< Leia mais >>
publicado em 21 de maio de 2014
Vol. 4 (2014) Suplemento 1: I Congresso Internacional de Responsabilidad Social y Corporativa y Gestión Deportiva<< Leia mais >>
publicado em 23 de janeiro de 2014
Vol. 3 (2013) Suplemento 2: XIV Congresso APOGESD - Da Liderança à Inovação: O Papel do Gestor Desportivo<< Leia mais >>
publicado em 23 de janeiro de 2014
Vol. 3 (2013) Suplemento 1: V Cong. Brasileiro sobre Gestão do Esporte - Gestão do Esporte no Brasil: Vicissitudes, Limites e Formação<< Leia mais >>
Gestão Esporte :: O seu ambiente virtual para discussões esportivas :: Juiz de Fora - MG

(32) 9801-0111

(32) 8707-6229