NOVIDADE

A questão estrutural que envolve a relação entre as entidades esportivas

11

Abr

2014


Por Luiza Lourenço
E-mail: luiza.lourenco@gestaoesporte.com


Para o desenvolvimento do esporte olímpico, o país conta com importantes organizações como o Comitê Olímpico Brasileiro e as Confederações Brasileiras das diversas modalidades olímpicas. A relação entre essas entidades é essencial para a evolução das práticas esportivas de alto nível e merece uma reflexão.


O Comitê Olímpico Brasileiro (COB) se relaciona com 30 Confederações Brasileiras, que cuidam do desenvolvimento das 42 modalidades olímpicas, além de se associar a outras 21 Confederações de esportes não olímpicos, como Futsal e Capoeira. Em todas, há a figura do presidente representando suas respectivas organizações, que buscam o fortalecimento do esporte a que se referem de maneira isolada e se encontram na Assembleia Geral do COB.


Com a premissa de que as comissões envolvem diversificadas modalidades, a gestão do Conhecimento permeando a relação entre as Confederações e o COB seria uma interessante proposta para o desenvolvimento do esporte nacional. A promoção de novas iniciativas passaria pela associação entre os conhecimentos gerados. Seja pela união de áreas comuns, como Penthlaton e Thriatlon, ou pela troca de experiências referentes ao modo de gestão de confederações já consolidadas, como a de Desportos Aquáticos e a de Futebol, com outras responsáveis por esportes que firmam sua presença no Brasil, como a de Badminton.


Contudo, quanto à organização e gerenciamento dessas diversas entidades, o que se percebe é um distanciamento entre elas e uma concentração das decisões para o COB. O pesquisador Lamartine DaCosta (2014)¹ afirma que o problema estrutural da política esportiva é institucional, categorizando o processo como um sistema viciado. Para ele, não houve uma evolução significativa das instituições e a forma de desenvolvimento ainda é muito amarrada a diversos fatores, sendo exemplos a burocracia e alta dependência de recursos governamentais.


A ideia é corroborada pelos pesquisadores Bárbara Schausteck de Almeida e Wanderley Marchi Jr. (2008), quando apontam que a manutenção dos presidentes e a criação de uma elite que responde pela tomada de ações promovem um modelo de gestão com caráter fechado, burocrático e centralizador. Essas características ficam evidentes em duas situações recentemente divulgadas pela mídia: a preocupação do governo com problemas administrativos de algumas confederações e o repasse de recursos da Lei Agnelo/Piva realizado pelo COB.


Recentemente, foi repercutido que o governo estaria preocupado com o comprometimento dos resultados do país nos seguintes esportes: Basquete, Ginástica, Boxe e Canoagem. Segundo as informações, as falhas na gestão das entidades responsáveis são provenientes de questões financeiras (Confederações Brasileiras de Basquete e de Canoagem), falta de equipe administrativa especializada (Confederação Brasileira de Ginástica) e dificuldades na Gestão de Talentos (Confederação Brasileira de Boxe)². Mesmo com a intenção de ações mais específicas por parte do Ministério dos Esportes, fica evidente a ausência de profissionais qualificados nas entidades para lidar com seus gerenciamentos, além da falta de simbiose dessas organizações com outras, tendo a finalidade de oferecem suporte, encontrarem novas soluções para os problemas enfrentados e promoverem o desenvolvimento.


Outro ponto interessante a ser analisado é o repasse dos recursos provenientes da Lei Agnelo/Piva, que destina 2% do prêmio pago aos apostadores de todas as loterias do país ao COB e CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro). Desse montante, 85% (no valor total de R$101 milhões) são destinados ao COB, que faz a distribuição de acordo com os planos de trabalho e orçamentário anual de cada entidade. Desta maneira, as Confederações de Atletismo, Esportes Aquáticos, Judô, Vela e Voleibol continuaram recebendo a maior parcela na distribuição. O Futebol não participa dessa distribuição.


Veja abaixo a lista com os valores dos repasses para 2014:


Atletismo - 3.900.000,00
Badminton - 1.800.000,00
Basquete - 3.700.000,00
Boxe - 2.900.000,00
Canoagem - 2.900.000,00
Ciclismo - 2.900.000,00
Desportos Aquáticos - 3.900.000,00
Desportos na Neve - 1.600.000,00
Desportos no Gelo - 1.600.000,00
Esgrima - 1.700.000,00
Ginástica - 3.700.000,00
Golfe - 1.700.000,00
Handebol - 3.700.000,00
Hipismo - 3.700.000,00
Hóquei sobre a Grama - 1.700.000,00
Judô - 3.900.000,00
Levantamento de Peso - 1.700.000,00
Lutas Associadas - 2.000.000,00
Pentatlo Moderno - 1.900.000,00
Remo - 2.500.000,00
Rugby - 1.700.000,00
Taekwondo - 1.700.000,00
Tênis - 2.500.000,00
Tênis de Mesa - 2.900.000,00
Tiro com Arco - 1.700.000,00
Tiro Esportivo - 2.600.000,00
Triatlo - 2.800.000,00
Vela - 3.900.000,00
Vôlei - 3.900.000,00


Os pesquisadores Bárbara Schausteck de Almeida e Wanderley Marchi Jr. (2008) propõem uma reflexão acerca do modelo de gestão do COB e das relações entre as Confederações por meio dessa distribuição. Segundo eles, a manutenção dessa forma de administração dos recursos mantém a distância entre as instituições e faz muito pouco para contribuir com aqueles esportes que não tem tanta visibilidade. Os pesquisadores afirmam que:


"Parece-nos paradoxal entender que a meritocracia acelerará o desenvolvimento do esporte no país e diminuirá as diferenças entre as confederações, já que as modalidades com campeões olímpicos ou históricos de resultados em Jogos Olímpicos, que são capazes de atrair recursos da iniciativa privada, continuarão recebendo mais recursos, em oposição às modalidades de resultados locais."


Lamartine DaCosta (2014) aponta o surgimento de novas estruturas como as Ligas, que aparecem como soluções, gerando um contexto de convivência entre o antigo e o inovador. Contudo, é necessário que o modelo que se encontra em situação de comodidade seja reciclado e repensado, para que a evolução das instituições venha também com a profissionalização dos atuantes e da mudança na forma de pensar a Gestão do Esporte Segundo o pesquisador,


"Os clubes são dirigidos por pessoas que não são remuneradas. Então, são entidades políticas. E sendo entidades políticas pode-se esperar qualquer coisa lá de dentro e não se sabe quem são os responsáveis. Precisamos de uma lei de responsabilidade para o dirigente esportivo, e não existe isso."


A Gestão do Esporte ainda constrói seus alicerces de formação no país, enfrentando alguma resistência das antigas práticas de administração, o que torna ainda mais necessários investimentos na profissionalização com atuantes capazes de aplicar diversas áreas de conhecimento em prol do desenvolvimento das organizações. Para alcançar o esmerado objetivo de "tornar e manter o Brasil uma Potência Olímpica", é preciso que o gerenciamento das organizações vá além de suas representatividades e presidências, associando as diversas áreas e, em consequência, promovendo o esporte de maneira igualitária e profissional.


Referências bibliográficas, fontes e sugestões para aprofundamento:


¹Entrevista com Lamartine DaCosta realizada pelo Esporte Essencial http://www.esporteessencial.com.br/entrevista/lamartine-da-costa-pesquisador


²http://noticias.bol.uol.com.br/ultimas-noticias/esporte/2013/12/09/ma-administracao-de-confederacoes-acende-alerta-do-governo-rumo-a-rio-2016.htm

ALMEIDA, Bárbara Schausteck de ; MARCHI JÚNIOR, Wanderley . A RELAÇÃO GOVERNO FEDERAL E COMITÊ OLÍMPICO BRASILEIRO SOB ANÁLISE DA LEI 10.264/2001 (AGNELO-PIVA) NO PERÍODO DE 2005 A 2008. Pensar a Prática (Online), v. 15, p. 575-595.


http://www.cob.org.br/confederacoes-brasileiras


http://esporte.ig.com.br/maisesportes/2013-12-19/com-mais-recursos-em-2014-cob-nao-muda-distribuicao-da-lei-agnelopiva.html

 

 


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