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publicado em 29 de junho de 2014
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publicado em 21 de maio de 2014
Vol. 4 (2014) Suplemento 1: I Congresso Internacional de Responsabilidad Social y Corporativa y Gestión Deportiva<< Leia mais >>
publicado em 23 de janeiro de 2014
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publicado em 23 de janeiro de 2014
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Bárbara Schausteck de AlmeidaBárbara Schausteck de Almeida


2014 é ano de...? Jogos Olímpicos! E de celebrar a “humanidade” no esporte

Revezamento da Tocha Olímpica, dia 71. Fonte: Sochi.Ru


Nesse primeiro post do ano, gostaria de deixar uma mensagem positiva sobre o poder que o esporte pode ter. Por isso começo com uma reflexão bastante particular.


Há alguns anos, quando auxiliava um colega em entrevistas para seu doutorado, conversamos com o membro de uma organização esportiva internacional que me marcou em sua declaração: quando temos amigos em diferentes países, mudamos nossa opinião sobre o lugar e as pessoas; com isso, dificilmente começaríamos uma guerra.


No ano passado, quando participei do seminário para pós-graduandos da Academia Olímpica Internacional na Grécia, tive uma experiência muito gratificante em diversos sentidos, mas sem dúvida o que ficará marcado para sempre foi a oportunidade de conviver e aprender com pessoas de 18 países, nos 5 continentes.


Entre os participantes, um colega da Rússia me ajudou a desconstruir diversos mitos sobre o país e seu povo. De uma maneira divertida e sutil, ele deixou claro que não era um espião, que não tomava vodca e que, porque não falava puxando o "r" na pronúncia do inglês, não deixava de ser russo. De início, ele afirmou que os russos são muito sentimentais mas que nós poderíamos não acreditar nisso porque sempre os vimos nos filmes americanos se comportando de forma fria, violenta ou pouco amigável.


Em situações como essa que percebo que, por maior que seja a tentativa, nossas impressões são sim feitas por estereótipos e preconceitos socialmente construídos. Desde então, parei de julgar os estrangeiros que veem o Brasil como futebol, samba e praia, porque nós brasileiros também nos baseamos em estereótipos ao pensar os demais países.


O que eu aprendi com esse colega russo me faz ver de outra forma as notícias que leio ou como as pessoas se referem à Rússia. Isso não significa que me tornei uma pessoa ingênua sobre uma série de problemas, históricos e atuais, que envolvem aquela nação. Entretanto, percebi que existem muitas pessoas com boas intenções, que não fazem o que fazem apenas para benefício próprio, mas que muitas vezes as coisas boas se perdem na ênfase das coisas ruins.


Antes da Copa do Mundo FIFA no país, em um mês as atenções estarão voltadas para outro grande evento esportivo: os Jogos Olímpicos de inverno em Sochi, na Rússia. Embora a mídia brasileira dê pouca atenção ao evento, que é distante da nossa cultura esportiva [1], é possível que os fãs de esporte acompanhem as competições pelos links escondidos nos portais esportivos ou pela televisão [2].


Se for esse seu caso, sugiro ir além dos resultados ou da "plástica" das modalidades em si. O esporte, quando olhado com algumas lentes, é cheio de nuvens negras, que não devem ser ignoradas - olhar para elas é o que fazemos por aqui. Mas por trás, existe um céu azul, de pessoas com boas intenções, orgulhosas do seu país e de seu povo, que vale a pena ser apreciado.


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[1] Para não perder os bons costumes nesse ano que se inicia, nesse tema sugiro a leitura do artigo de Otávio Tavares, Antonio Jorge Soares e Thiago L. Bartolo: "Frozen bananas": esporte, mídia e identidade brasileira nos Jogos Olímpicos de inverno, publicado em 2007 na Revista Brasileira de Ciências do Esporte.


[2] O Globoesporte.com terá a cobertura do evento (ainda que utilizando a nomenclatura incorreta "Olimpíadas", como nossa colega Luiza Lourenço explicou aqui no portal GestãoEsporte.com). A Record, como fez em Vancouver 2010, transmitirá alguns dos eventos.


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Bárbara Schausteck de Almeida é doutoranda em Educação Física, na linha de pesquisa em História e Sociologia do Esporte, da Universidade Federal do Paraná. Escreve todas as terças no blog sobre casos em que o esporte é mais do que aquilo que aparece no local de competição...


 

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2014: A Copa em foco (as estratégias de manutenção da atenção - e seus riscos)

 

Com o apito final que consagrou a Espanha campeã da Copa do Mundo FIFA em 2010, os olhares dos interessados por futebol definitivamente se voltaram para o Brasil. Nesse intervalo de quatro anos, os campeonatos continentais e as eliminatórias nos distraíam e ao mesmo tempo aumentavam as expectativas para a Copa do Mundo no Brasil. A Copa das Confederações não foi o aquecimento conforme a expectativa da FIFA, mas ainda assim fez com que o mercado futebolístico no Brasil se movimentasse.

 

Entramos de vez no foco e diversos "mini-eventos" mantém o assunto em pauta: a abertura e inscrição recorde de voluntários, o início da venda de ingressos via hospitalidade, o início da venda de ingressos para os demais assentos, a definição dos classificados pelas eliminatórias, o sorteio dos ingressos para os demais assentos, o lançamento da bola para a Copa, o sorteio das chaves, a reabertura da venda de ingressos... E ainda nem chegamos em 2014!

 

Com mais motivos para lamentar que se empolgar, estamos vendo que os prazos das obras dos estádios não serão cumpridos e que as obras de mobilidade urbana (aquelas que ainda estão sendo consideradas ou realizadas) também terão seus prazos finais prorrogados.

 

Mas a partir de agora, não é preciso ser nenhuma vidente para perceber o que está por vir.

 

Os problemas das cidades-sedes serão acentuados pelas mídias internacionais, ao apresentar aos seus públicos os locais que as seleções vão jogar. Problemas nessas coberturas serão comuns, como preconceitos ou o reforço de estereótipos equivocados, o que levará a uma série de desconfortos entre os locais e seleções (já iniciada na desconfortável situação de Inglaterra x Manaus). Isso nos incomodará, como brasileiros, assim como as críticas que esses veículos farão ao nosso país. Ingenuidade de quem pensou que a "visibilidade" é somente positiva [1].

 

Nos intervalos entre esses "mini-eventos" (vem por aí a continuidade da venda de ingressos, seus envios para os compradores, a capacitação e seleção dos voluntários, as visitas de comitivas internacionais...), parte da mídia continuará reportando os atrasos, as ineficiências estruturais e organizacionais, enquanto outra colocará o foco na "festa", prendendo-se a miudezas futebolísticas como destaques de cada seleção como uma estratégia de preparar os espectadores para um evento futuro [2]. Esse posicionamento diferenciado será resultado tanto das movimentações partidárias para as eleições de 2014, como também parte dos interesses que patrocinadores e a própria mídia tem em promover a Copa do Mundo.

 

Resta a nós, cidadãos, estarmos atentos e refletirmos sobre o que lemos e ouvimos.

 

Referências

 

[1] Pesquisadores realizaram um estudo sobre a cobertura midiática dos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008 em 9 países para identificar o impacto na imagem da China e perceberam que a imagem não foi mudada, ainda que a presença na mídia tenha sido maior. Isso aponta que não há um "milagre" da visibilidade, ainda que alguns políticos tenham se apegado a isso para justificar os investimentos públicos. Para saber mais: ZENG, Guojun; GO, Frank; KOLMER, Christian. The impact of international TV media coverage of the Beijing Olympics 2008 on China's media image formation: a media content analysis perspective. International Journal of Sports Marketing & Sponsorship, v. 12, n. 4, pp. 319-336, 2011.

 

[2] Sobre o agendamento da Copa 2014, sugiro a leitura dos trabalhos do grupo Labomídia, da UFSC. Consultar o repositório institucional do grupo, especialmente o texto "COPA DO MUNDO DE FUTEBOL DA/NA GLOBO: UM ESTUDO SOBRE O AGENDAMENTO DE 2014 NO JORNAL NACIONAL"

 

Imagem retirada do Portal Brasil 2014

 

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Violência no futebol: uma dose de utopia para a epidemia da simplificação

Mais uma situação lamentável acontece no futebol brasileiro. A briga entre as torcidas do Atlético-PR e do Vasco no último domingo tomaram as manchetes e atenções da rodada final do campeonato e trouxeram novamente o debate sobre a violência no futebol.

 

Ocorrências mais comuns do que gostaríamos, a violência entre torcidas de futebol é um problema de difícil solução. Não sou especialista no assunto, mas me interesso pelo tema e todas os pesquisadores dessa área são unânimes em ressaltar que não existe uma solução única para esse problema. Entretanto gostaria aqui de desfazer alguns mitos que acabam sendo construídos e reproduzidos por mídia e torcedores sempre que uma situação dessa se repete.

 

Trago aqui alguns dados resultantes de pesquisa realizada com os torcedores organizados de São Paulo, coordenado pela Prof. Dra. Heloisa Reis, da Unicamp [1].

 

  • As torcidas organizadas são compostas por 26% de menores de idade e 14% tem mais que 25 anos.
  • Naquela amostra, haviam mais torcedores com pós graduação (0,5%) do que analfabetos (0,2%). Sabe-se ainda que 32% tem o Ensino Médio Completo, 8% completaram o Ensino Superior e 19% tem o Superior Incompleto (dados compatíveis com as idades dos entrevistados).
  • Quanto a profissão, 16,5% estavam desempregados e 16,5% eram estudantes. 4% ocupavam cargos de baixa ou nenhuma qualificação, sendo que o maior grupo (39%) tinham profissões que exigem algum nível de aperfeiçoamento técnico.
  • 85% dos torcedores dizem ir ao estádio de 1 a 2 vezes por semana, sendo assíduos a suas equipes.
  • 67% não consomem álcool ou o consomem em nível moderado, de acordo com o teste AUDIT.

 

Como a autora aponta, os resultados "desautorizam a generalização dos torcedores organizados como marginais, vagabundos e desocupados". Esse é um primeiro mito que precisa ser desfeito.


As responsabilidades e causas da violência no futebol não são tão desconhecidas assim, entretanto não podem ser considerados de forma isolada, ou seja, não é produtivo criminalizar ou culpar um ou outro grupo como único responsável. Sendo assim, um cenário ideal seria:

 

  • Que os torcedores intencionados à brigar não vissem no futebol, dentro ou fora do estádio, um local propício para violência. Isso poderia ser possível com a impossibilidade dele se tornar "anônimo" na multidão e se as punições fossem compatíveis aos seus crimes (contra o patrimônio, lesão corporal, homicídio doloso, etc.) e as penas mais severas do que efetivamente são historicamente. Além disso, que houvesse um maior controle, no mínimo, sobre a entrada e consumo de drogas e álcool no estádio e seus arredores;
  • Que a rivalidade entre torcidas, o fanatismo e as provocações fossem desencorajadas, a começar por gestores de futebol, jogadores e torcedores;
  • Que os policiais ou seguranças privados fossem preparados para lidar com as multidões, agindo de forma tática e através de sua inteligência para identificar torcedores intencionados à brigas e evitar confrontos violentos. E ao atuarem, que efetivamente prendessem os responsáveis pelos atos violentos, para que os casos fossem julgados pelas instâncias competentes;
  • Que a mídia auxiliasse a polícia na identificação de suspeitos através de imagens, não publicando as cenas violentas que pudessem ser vistas como promoção de alguns torcedores - comumente, a visibilidade dada aos torcedores envolvidos se torna um trunfo, como uma forma de causar medo e "respeito" dos demais;
  • Que a diretoria dos clubes atuasse em conjunto com os líderes das torcidas para identificar torcedores envolvidos nas brigas e estivessem preparados para, com os órgãos competentes, atuar de forma tática contra a violência. E além disso, estarem certos da capacidade funcional dos seguranças privados contratados e da segurança das estruturas do estádio para evitar confrontos;
  • Que os jogadores e técnicos de futebol tomassem ciência da paixão que o futebol provoca e se sentissem responsáveis pela sua posição como ídolos. Que não fossem violentos dentro de campo e em suas declarações públicas para com o adversário. E que os torcedores fossem conscientes da necessidade de autocontrole nos casos em que a equipe não tem o desempenho esperado.

 

Esses pontos são reconhecidamente utópicos, mas acredito que sirvam para ilustrar a complexidade e o desafio que a questão impõe. Por isso, não devemos simplesmente dizer que os envolvidos são "marginais sem educação" ou que "esse é o país da Copa". São vidas que são perdidas ou extremamente traumatizadas e responsabilidades que são redimidas enquanto nos preocupamos com "o que mundo vai dizer". Digam-me um país em que não existe violência e que seria "digno" de receber a Copa do Mundo FIFA. Pois é.

 

Mas também não adianta simplesmente dizer que é um problema social e cruzar os braços. Todas as pessoas que fazem parte do universo esportivo tem responsabilidades, por isso não adianta passar a bola para os outros. Temos que vestir nossas camisas e atuar por um mesmo time, se queremos ver um resultado diferente.

 

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O anti-jogo (1): esporte e resultados arranjados

 

Na reta final do Campeonato Brasileiro de futebol, a conquista do título pelo Cruzeiro com rodadas de antecipação não resultou em um final menos "dramático", especialmente com a presença de clubes de expressão midiática buscando sua manutenção na série A. Inevitavelmente, surgem boatos, escorregadas em entrevistas, denúncias e debates de torcedores, entre outras "teorias da conspiração", sobre alegações de corrupção ou, no termo frequente nas últimas rodadas, "mala branca".

 

Como o blog não está na seção policial, meu objetivo aqui não é dizer se clube A ou B pagou ou recebeu dinheiro para ser derrotado. Mas gostaria de refletir sobre a indústria que tem sido revelada por trás das negociações de resultados no esporte internacional nos últimos anos.

 

O tema não é necessariamente novo, já que se voltarmos no ano de 2005 podemos lembrar do escândalo da "Máfia do apito" [1]. Já naquele caso, passamos a ficar familiarizados com a possibilidade de que o futebol pode não necessariamente ser "uma caixinha de surpresas". Desde então, diversos casos eclodiram pelo mundo, sendo que em fevereiro desse ano a Europol revelou resultados de uma investigação que suspeitava do envolvimento de 480 pessoas de 13 países europeus no arranjo de resultados de 380 jogos profissionais de futebol, incluindo eliminatórias da Copa do Mundo, classificatórios para Campeonatos europeus e jogos nas ligas nacionais, que incluem partidas em praticamente todos os continentes do mundo. [2] O infográfico a seguir ajuda a explicar como se dá o funcionamento de uma das redes de aposta que envolve a negociação de resultados.

 

 

Fonte: http://blog.thomsonreuters.com/index.php/match-fixing-scam-graphic-of-the-day/ - traduzido pelo blog.

 

Talvez seja surpreendente para nós, brasileiros, que não temos a cultura de apostas em esporte, mas esse é um negócio milionário em outras partes do mundo. No Brasil, as apostas são controladas pelo Governo, especialmente através das loterias federais. Ainda assim, a paixão pelo esporte - e mais ainda pelo futebol - não se traduz no número de apostas: a Timemania, por exemplo, mesmo com o apelo ao "time do coração" e a visibilidade gerada por clubes de futebol que veem ali a oportunidade de diminuir suas dívidas fiscais, tem resultados modestos bem abaixo das expectativas iniciais de R$ 500 milhões em arrecadação. Isso para não entrar no mérito que a criação da loteria serve como uma estratégia que usa o torcedor-apostador como pagador de uma dívida que os clubes acumularam por décadas devido a sua má administração e o governo não tem coragem para cobrar como deveria, já que se cobrasse acabaria com o patrimônio de grande parte dos clubes de futebol do país. Com um repasse para os clubes que alcançou, no máximo, R$ 52 milhões, esse fluxo é um trocado perto da estimativa de R$ 4 bilhões de dívidas. [3]

 

Com essas características, podemos não nos dar conta desse outro lado da "diversão" que algumas pessoas sentem com o esporte. Entretanto, a partir do momento que o resultado de um jogo de futebol vai além da "zoação" com os colegas e provoca a movimentação financeira de milhões de dólares em diversos países, é possível repensar a ideia que se trata "simplesmente" de um jogo.

 

Nessas circunstâncias, os atletas apresentam um comportamento "anti-esportivo" quando deixam de dar o melhor de si e de respeitar os outros (adversários, equipe, árbitros e torcedores) e as regras. São inúmeros os casos que o comportamento "anti-esportivo" está presente e pretendemos abordá-los em futuros posts. Para esse caso, quando atletas são subornados, o esforço para não vencer pode não ser tão evidente, mas a descoberta desses casos é extremamente decepcionante para os fãs e acaba por minar a legitimidade das equipes e dos campeonatos: afinal, por que me envolver com um esporte que os resultados podem ter sido fabricados ou comemorar um título que pode ser retirado no futuro?

 

O esporte e o futebol só conseguem movimentar tudo que movimentam porque contam com o envolvimento emocional das pessoas com um apelo incomparável em outras áreas das sociedades. Se as lógicas financeiras e o interesse de poucos se sobrepor a imprevisibilidade de resultados, o esporte tem muito a perder. Colocar todas as fichas nas apostas é uma nítida aposta no azar, que pode causar um game over para equipes e ligas.

 

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[1] Terra Esportes: Veja a cronologia da corrupção no futebol (2005). Disponível em: http://esportes.terra.com.br/futebol/corrupcaonofutebol/interna/0,,OI681561-EI5477,00.html

[2] Update: results from the largest football match-fixing investigation in Europe (06 de fevereiro de 2013). Disponível em: https://www.europol.europa.eu/content/results-largest-football-match-fixing-investigation-europe

[3] Dirceu Silva e Silvia Amaral: A gestão da lei Timemania e os principais resultados do marketing esportivo (2013). Disponível em: http://rbceonline.org.br/congressos/index.php/conbrace2013/5conice/paper/view/5726/2476

Leia também: HILL, Declan. How Gambling Corruptors Fix Football Matches. European Sport Management Quarterly, v. 9, n. 4, 2009.

Créditos da imagem do banner: Stuart Franklin/Bongarts/Getty Images

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A essência do esporte e a Fórmula 1

A Fórmula 1 está entre aquelas práticas que frequentemente são questionadas como sendo ou não esporte. Para algumas pessoas, trata-se de uma disputa entre carros, e não entre pessoas, porque se acredita que um piloto mediano com um carro excelente pode superar pilotos excelentes em carros medianos. Outro aspecto que é comumente questionado é se devemos considerar como esporte uma atividade que aparentemente não produz esforço físico de uma pessoa. Com os avanços tecnológicos nos carros, é possível se ter uma falsa impressão que os pilotos se esforçam ainda menos.

 

Não existe um consenso sobre o conceito de esporte ou quais são as características fundamentais que devem existir para incluir ou excluir uma prática nesse espectro. Podemos pensar na perspectiva que as modalidades tem uma definição mais clara, ou seja, sabe-se qual é a lógica em que se pratica o futebol, o rugby, o tênis de mesa, etc. Mas dentre essas práticas, existem diferentes sentidos dados pelos praticantes, que podem praticar a modalidade como profissão, para disputar campeonatos internacionais ou simplesmente por lazer, o que não exige o cumprimento de todas as regras universais (1).

 

Pensar as modalidades esportivas nos levará a algumas observações que podem ser mais ou menos comuns a qualquer modalidade. Por exemplo:


1- A existência de uma instituição que regularize as regras e organize a modalidade, tanto em territórios nacionais quanto internacionalmente. Assim surgem as federações locais, as confederações nacionais e as federações ou organizações internacionais de uma modalidade divididas hierarquicamente e, que, no geral, buscam padronizar a forma como a modalidade é praticada em todo o mundo e viabilizar as competições entre diferentes localidades.


2- A existência ou não de um esforço físico envolvido na atividade é um tema mais delicado, já que praticantes, gestores e estudiosos de modalidades como o pôquer ou o xadrez defendem que o esforço não é físico, mas mental, o que igualmente exige uma preparação e treinamentos anteriores. Numa corrida de Fórmula 1, estima-se que um piloto gaste de 11 a 17 vezes o metabolismo de repouso, numa exigência de esforço e energia que equivale ao de outras modalidades como basquetebol ou beisebol (2).


3- Ainda que seja um aspecto bastante questionável, entende-se que numa competição deva existir um princípio de igualdade entre os competidores. No mínimo, as equipes contam com o mesmo número de componentes e o uso de equipamentos semelhantes. Obviamente que o acesso e poder de aquisição de tecnologias, em equipamentos e para treinamento, são muito variáveis, mas existe uma tentativa de dar iguais condições aos competidores, especialmente em altos níveis de performance. Esse tem sido o esforço da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) ao instaurar, a cada temporada, novas exigências que tentam trazer um equilíbrio mínimo à competição, apesar de parecerem ir contra às possibilidades que a tecnologia poderia trazer ao esporte (3).

 

Mas talvez o principal elemento que é consenso ao se conceituar esporte é uma competição regulada por regras, mais ou menos específicas mas que sejam aceitas internacionalmente. Quando pensamos em competição, ela pode ser contra um adversário, contra uma marca (tempo, altura, distância) ou contra a natureza. É muito provável que qualquer esporte que você imagine tenha esse elemento. E é nesse aspecto que percebo como a Fórmula 1 tem derrapado, talvez não pela inabilidade dos condutores da FIA, mas pelos méritos de equipes e pilotos que estabelecem uma hegemonia, vencendo seguidamente corridas e campeonatos sem deixar brecha para novos candidatos.

 

Algumas pessoas dizem que a Fórmula 1 perdeu a graça desde a morte de Ayrton Senna, já que nenhum dos pilotos brasileiros conseguiu alcançar tal posto como ídolo. Entendo que esse é um ponto crítico, de difícil explicação racional mas de óbvio impacto prático na relação dessa modalidade com o público nacional. Mas não se trata só disso.

 

Depois da hegemonia Ferrari dos anos 2000 (especialmente com Michael Schumacher com os 5 títulos entre 2000-2004), houveram alguns lapsos de reais disputas entre pilotos e escuderias, mas que recentemente voltaram a uma hegemonia, dessa vez da Red Bull Racing com Sebastian Vettel. Na chegada do evento ao Brasil, já não havia nenhuma expectativa, já que o campeonato estava decidido um mês antes. Para algumas pessoas, essa definição com tanta antecedência pode não fazer diferença, já que sempre existe o interesse pela velocidade e pelo desempenho das máquinas. Entretanto, para um público mais amplo que admira a competição em si, hegemonias não dão audiência.

 

Por isso, parabéns a Vettel e a RBR. Mas o que os fãs querem mesmo é algo assim (os brasileiros e os ferraristas com um final diferente, é claro!)


(1) Sugestão de leitura sobre o tema: MARQUES, Renato Francisco Rodrigues; ALMEIDA, Marco Antonio Bettine; GUTIERREZ, Gustavo Luis. Esporte, um fenômeno heterogêneo: estudo sobre o esporte e suas manifestações na sociedade contemporânea. Movimento, v. 13, n. 3, 2007, pp. 225-242.


(2) RODRIGUES, Luiz Oswaldo Carneiro; MAGALHÃES, Flávio de Castro. Automobilismo: no calor da competição. Rev Bras Med Esporte, v. 10, n. 3, 2004, pp. 212-215.


(3) Aqui sugiro a leitura do blog do Reginaldo Leme, em que ele explica que para 2014 os carros terão potência e capacidade de combustível reduzidas.

Crédito das fotos: Getty Images - Disponível em: http://www.redbull.com/en/motorsports/f1

 

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FIFA, Brasil e mais un pasito pa atras

Na semana passada, a FIFA anunciou que Ricky Martin será o cantor da Copa do Mundo no Brasil em 2014. Algumas pessoas podem lembrar que na Copa anterior, na África do Sul, Shakira interpretava a música tema que no seu refrão trazia "This time for Africa" (Essa é vez da África, na tradução livre).

 

 

Na perspectiva atual que os megaeventos como a Copa do Mundo FIFA e os Jogos Olímpicos alcançaram, de se tornarem um grande espetáculo para uma audiência internacional - possivelmente os eventos que tem o maior alcance de mídia existente - não é de se espantar que as instituições responsáveis por tais eventos agreguem outras atrações para além do esporte. E nesse espetáculo, pensar nos ritmos latinos (especialmente os mais comerciais) logo nos faz pensar no balanço a mais, que "contagia" e remete a um ambiente festivo.

 

O anúncio foi realizado pela FIFA, e não pelo Comitê Organizador Local, o que pode indicar que essa escolha é uma ordem superior e não uma decisão conjunta. Até porque não seria difícil pensar em cantores ou ritmos nacionais, que seriam mais representativos do país que Ricky Martin. Isso não significa negar a latinidade que o Brasil e a cultura brasileira tem, mas em se tratando de uma oportunidade ímpar como a Copa do Mundo de divulgar a cultura nacional para um público internacional, a opção por um cantor latino reforça um equívoco comum que não diferencia os países latinos entre si.

 

Quando a FGV com a Ernst & Young divulgou a pesquisa de impactos socioeconômicos da Copa no país, colocou como uma das "conquistas" o benefício intangível de "fortalecimento das identidades regionais". Pois bem, se a música seria um meio bastante impactante para tal fortalecimento, perdemos mais essa oportunidade ao deixar que uma imagem estereotipada dos países latino-americanos como uma cultura só tomasse conta.

 

 

Fonte: Brasil sustentável - Impactos Socioeconômicos da Copa do Mundo 2014, p. 43. Disponível em: http://fgvprojetos.fgv.br/sites/fgvprojetos.fgv.br/files/922.pdf


(Essa imagem, e todo o estudo, é suscetível à críticas, mas nesse post me deterei na questão "intangível").

 

Nesse sentido, fica evidente que os esforços do Brasil com a Copa não estão caminhando tão juntos com os interesses da FIFA. Sobre esse aspecto, é válido mencionar que a empresa Sony é uma das principais patrocinadoras da FIFA e, não por acaso, Ricky Martin tem um contrato com a empresa, que promoverá um concurso para eleger a música tema que será interpretada pelo cantor.

 

 

Sendo assim, parece que no quesito legado intangível para divulgação da cultura brasileira, especialmente em música, através da Copa, demos "un pasito pa'atras". O Ministério da Cultura terá que comer muito arroz e feijão para compensar esse belo gol contra e buscar formas eficazes de marcar para o país. Ou alguém mais lembra de outra manifestação cultural como herança da Copa de 2010?

 

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Imagem do banner: Manuela Scarpa /Photo Rio News

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Manifestações e a Copa do Mundo: insatisfação de/com quem?

Em junho desse ano nós brasileiros fomos testemunhas daquela que talvez tenha sido a maior mobilização social do país, quando milhões de pessoas foram às ruas para protestar por motivações múltiplas. Na oportuna coincidência com a realização da Copa das Confederações, quando os estádios que tiveram seus custos multiplicados foram inaugurados, as pessoas tornaram a ideia de "padrão FIFA" - utilizada como justificativa para a necessidade de novos estádios e o aumento de custos nas obras - para reivindicar que as mesmas exigências e níveis se aplicassem às escolas/educação e aos hospitais/saúde.


Cartazes reivindicando melhorias e criticando a FIFA (do blog do Álvaro Dias)


Esse cenário parecia muito surpreendente, já que poucos apostariam que um significativo número de pessoas no Brasil se colocariam contra a realização de uma Copa do Mundo no país. Mesmo entre aquelas pessoas que não se colocavam totalmente contra o evento, no mínimo, questionavam o investimento público nos estádios. De certa forma, esses posicionamentos por si só colocaram em dúvida aquela máxima de Karl Marx da qual algumas pessoas se apropriam em afirmar que o "futebol é o ópio do povo", substituindo o futebol pela religião, no original do autor. Naquele momento, a mensagem era: gostamos de futebol sim, mas isso não significa que estamos alheios a todos os demais problemas sociais que envolvem nossa sociedade.


Charge por Samuca, do Diário de Pernambuco


Apesar disso, a sequência dos fatos não exatamente seguiu uma resistência significativa ao evento. Essa semana, com a reabertura da compra de ingressos, a FIFA vendeu cerca de 288 mil entradas em poucas horas. Nossa colega blogueira Marina Tranchitella escreveu sobre as fases de compra de ingressos, atentando para as diferenças entre a demanda e a oferta entre os países e de que forma a quantidade de brasileiros pode ser analisada (leitura mais que recomendada! Veja aqui: http://www.gestaoesporte.com/publicacao/venda-de-ingressos-para-a-copa-2014-uma-leitura-do-cenario).


Pensando nessa situação pela Sociologia do Esporte, gostaria de compartilhar uma reflexão na relação da grande demanda de ingressos por parte dos brasileiros poucos meses após um cenário que parecia totalmente desfavorável ao evento. Será que já esquecemos das reivindicações de junho? Será que as pessoas querem apenas "pão e circo"?


Provavelmente não teremos uma resposta definitiva, mas reflito sobre a hipótese de que o espetáculo futebolístico atrai o interesse de algumas pessoas de tal forma que elas abdicam de seu lado "cidadão" pelo lado "torcedor", em que a motivação emocional, um sentimento de que a Copa de 2014 é uma experiência única, se sobrepõe a racionalidade, que evidencia as situações de dominação as quais estamos suscetíveis enquanto pagadores de impostos.


Uma outra variável a ser considerada nesse contexto retorna à histórica desigualdade social em que vivemos. Porque embora esse tema pareça ser lugar comum, ainda provoca espanto o fato que numa mesma cidade, enquanto a "ralé" (na expressão do sociólogo Jessé de Souza) sequer tem acesso às condições sanitárias mais básicas, outras vivem um "padrão FIFA VIP", que frequentam escolas, universidades, hospitais e "camarotes" muito mais requintados que o "padrão FIFA".


Com isso, quero dizer que sou contra a perspectiva que o futebol seja "ópio" e faça com que as pessoas esqueçam os demais problemas sociais, mas concordo sim que a vontade de fazer parte do espetáculo se sobreponha, ao menos por alguns momentos, à razão crítica e questionadora de como aquele espetáculo é construído, em que o interesse particular se sobrepõem a uma causa coletiva. E esse paradoxo particular acontece para um público relativamente restrito, que tem acesso à informação, com os recursos financeiros necessários e até com sorte suficiente para serem sorteados na intenção de comprar um ingresso.


Bruno Santos, para o Terra


Ah, como esse tal de esporte é um fenômeno curioso!


Qual é a sua hipótese? Adoraria conhecer sua opinião! Utilize o espaço abaixo pelo Facebook, ou entre em contato com a autora pelo e-mail bsalmeida@gestaoesporte.com e pelo Twitter @barbaracwb


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Sugestão para aprofundamento:

Jessé de Souza: "A ralé brasileira: quem é e como vive". Belo Horizonte: UFMG, 2009.


Foto do banner: Michael Melo/Frame/Estadão Conteúdo

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Caso de doping é crise no esporte: o papel do gestor

Lance Armstrong conversa com Hein Verbruggen e Jacques Rogge, presidente do COI.

 

Fonte: http://www.sportskeeda.com/2013/01/24/armstrong-doping-disgrace-sad-rogge/


Doping talvez seja um dos temas mais polêmicos no meio esportivo e os leitores do portal GestaoEsporte.com provavelmente verão essa temática sendo abordada em diversas oportunidades e sob diferentes pontos de vista. Hoje, especificamente, gostaria de refletir sobre a situação do gestor quando um grande escândalo de doping é revelado.

 

Há algum tempo venho lendo e juntando informações sobre o caso do ciclista estadunidense Lance Armstrong e ontem li a notícia que o antigo presidente da União Internacional de Ciclismo (UCI na sigla em inglês), o holandês Hein Verbruggen, escreveu para Armstrong solicitando dele uma manifestação pública para deixar claro que o ex-presidente não encobriu qualquer resultado positivo do doping durante sua gestão. Como é possível imaginar, Verbruggen e a UCI sofrem inúmeras críticas pela forma como "permitiram" que tamanho escândalo acontecesse.

 

Antes de dar continuidade a esse tópico, gostaria de abrir um parênteses para tentar resumir o "caso" Lance Armstrong. (Se você já está familiarizado com o caso, sinta-se à vontade para pular os dois próximos parágrafos)

 

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O Tour de France (Volta da França) talvez seja a prova de maior evidência e tradição do ciclismo de estrada, que em 2014 terá sua 101ª edição. Como o nome da competição indica, ela possui uma rota por diversas regiões do país (e nos últimos anos na Inglaterra também) em estradas em montanhas que totalizam aproximadamente 3.600 quilômetros. Como se pode imaginar, percorrer todo esse percurso em 22 dias exige muito dos atletas, tanto que o histórico de atletas pegos nos exames antidoping é considerável. A imagem abaixo é bastante clara ao demonstrar em vermelho os atletas entre os 3 primeiros lugares de 1996-2012 que sofreram alguma penalidade por doping.

 

Fonte: http://sportazdrowie.files.wordpress.com/2013/01/lancearmstrong.jpg


O ciclista Lance Armstrong venceu a prova de 1999 a 2005, tornando-se um mito na modalidade. Após já ter começado na carreira, no ano de 1996 ele foi diagnosticado com câncer nos testículos que se espalhou para o cérebro e pulmões. Após cirurgias e tratamentos, o câncer desapareceu e ele voltou aos treinamentos, fundando pouco depois a fundação Livestrong, que busca auxiliar pacientes diagnosticados com a mesma doença. Ao vencer a doença e posteriormente por sete vezes uma prova de tamanha dificuldade, Armstrong se tornou um personagem perfeito para inspirar as pessoas, atraindo grande atenção de fãs, da mídia e de patrocinadores. Em inúmeras ocasiões, existiram desconfianças sobre o uso de doping, que nunca havia sido comprovado. Até que em 2012 a agência antidoping dos EUA (USADA) elaborou um relatório trazendo provas de que ele havia se dopado. Dessa vez, o ex-atleta não se defendeu das alegações e foi banido definitivamente do esporte. Finalmente, ele admitiu a culpa em uma entrevista televisiva com a famosa apresentadora estadunidense Oprah Winfrey, revelando que utilizou diversas substâncias e métodos que são considerados doping nas suas 7 vitórias do Tour de France.

 

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Esse caso é extremamente polêmico e levanta inúmeros debates, sob diversos pontos de vista. Para o momento, gostaria de fazer um exercício de imaginação com você, para nos colocarmos no papel do presidente da UCI e pensarmos que situações foram enfrentadas (ou deveriam ter sido) quando o caso veio à tona. A pergunta principal é: como restaurar a credibilidade da modalidade quando todos os indícios levam o público e a mídia a crer que naquela prova não há nenhum vencedor "limpo", não dopado, indicando que os exames antidoping não são capazes de flagrar esses casos?

 

Obviamente a situação ideal seria que a gestão fosse eficaz o suficiente para evitar que a crise acontecesse, mas na impossibilidade de evitá-la, devemos pensar o que fazer. Conforme abordamos anteriormente nesse espaço, o gestor é o porta-voz da organização e deve agir em momentos de crise como esse. Pensemos então em algumas estratégias que poderiam ser utilizadas nesses casos:

 

1- Não fuja dos questionamentos e responda rapidamente. Os membros da organização precisam se reunir para pensar em uma resposta imediata e única entre todos aqueles que por ventura possam representar a organização externamente - gestores, diretores, corpo técnico, etc.;

 

2- Não saia num "caça às bruxas". Apontar culpados ou personificar o problema ("a culpa é do atleta") pode parecer a solução mais fácil, mas em casos de reincidência apenas retira a credibilidade da instituição e a confiança dos profissionais envolvidos (atletas, técnicos e demais membros da gestão);

 

3- Prepare-se para ser pressionado, de todos os lados. Patrocinadores romperão contratos, profissionais pedirão demissão, a mídia poderá promover matérias sensacionalistas, os atletas prejudicados buscarão punições e os fãs cobrarão mudanças. Será difícil, mas releia o ponto 1;

 

4- Não se exima das suas responsabilidades. Se processos judiciais ou internos precisarem ser mobilizados, siga em frente. Seja ético e assuma seus erros ou limites. Entretanto, não fique nisso e siga rapidamente para os itens seguintes;

 

5- Faça da dificuldade, um recomeço. Talvez essa seja a principal forma de lidar com a crise. Reconheça a derrota se ela for evidente, mas vire o jogo e utilize o aprendizado a seu favor e da organização. Reveja os processos, promova mudanças e inovação, otimize os recursos e, se preciso, renove sua equipe para fazer diferente. Debata com especialistas e encontre soluções efetivas e inovadoras para combater o problema;

 

6- Dê um suporte técnico ao atleta. Pode parecer contraditório ou sinalizar conivência, mas é uma mensagem que a organização tem uma preocupação com o ser humano e acredita que, apesar do erro, o próprio esporte pode ser um meio de auxiliá-lo a superar o momento de crise. Possibilitará à organização conhecer mais a fundo as fragilidades do processo gerencial e auxiliar nas estratégias de mudança, além de passar uma mensagem positiva aos demais atletas e profissionais envolvidos.

 

Não tenho certeza se essas ações são as melhores ou se seriam efetivas. Mas elas só deveriam ser colocadas em prática se a organização tem como filosofia um entendimento mais amplo da função social que o esporte tem, para além dos resultados ou da visibilidade que os casos extraordinários trazem. Porque uma instituição voltada para o social não se faz apenas com palavras na visão e missão, mas em todas as suas ações, inclusive nos momentos de crise.

 

Você incluiria mais alguma estratégia? Adoraria contar com sua colaboração! Utilize o espaço abaixo pelo Facebook, ou entre em contato com a autora pelo e-mail bsalmeida@gestaoesporte.com e pelo Twitter @barbaracwb

 

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Sugestão para aprofundamento:

 

Documentário SporTV: "Lance Armstrong: o campeão do doping"

 

Entrevista de Lance Armstrong à Oprah Winfrey:

 

 

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Comentário extraordinário: o caso Diego Costa

 

 

Muitos blogs de futebol do Brasil hoje têm algum comentário a fazer sobre o fato do jogador Diego Costa ter anunciado que jogaria pela seleção da Espanha e não do Brasil. Todos os tipos de argumentos têm sido levantados. Eu consegui mapear 8 grupos:

 

1.       Dos saudosistas, que dizem que o futebol já não é mais o mesmo e não existe mais amor à camisa;

2.       Dos brasileiríssimos, que dizem que não há nada como Pasárgada;

3.       Dos conspiratórios, que acham que tudo é culpa do Marin e da CBF;

4.       Dos vingativos, que querem tirar a cidadania brasileira do "desertor";

5.       Dos inescrupulosos, que não admitem sua própria culpa e exageram na culpa do outro;

6.       Dos globalizantes, que concordam que o mundo é globalizado e o futebol também deve ser;

7.       Dos "dinheiristas", que acham que dinheiro é a única motivação para qualquer atitude;

8.       Dos "Mario-vai-com-os-outros", que dizem que ele deveria ter o mesmo sonho de outros milhões de brasileiros.

 

Na Sociologia, a compreensão sobre a "identidade" cada vez menos é baseada no local de nascimento do indivíduo e cada vez mais um sentimento de pertencimento que se constrói e se modifica com o passar da vida. Somente a própria pessoa sabe o que faz ou não parte de sua identidade e como ela tem se modificado. Nesse ponto posso entender que cada pessoa tenha uma opinião sobre sua própria identidade, mas é injustificável querer julgar a do outro com base na sua própria.

 

É muito provável que todos os motivos da escolha de Diego Costa não venham à tona num futuro próximo. E nesse momento sequer sabemos se é uma questão de identidade. Mas talvez seja um bom momento para pensarmos que talvez a pátria amada não esteja sendo uma mãe tão gentil aos filhos deste solo, nem mesmo com os talentosos jogadores de futebol...

 

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Na foto de divulgação, no site de seu clube, Diego Costa diz "Eu gosto de ser protagonista. Sentir-me importante me ajuda" (Fonte: Club Atlético de Madrid)

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Blatter e FIFA: quando eu-pessoa e eu-instituição se confundem

Inicialmente, gostaria de agradecer todos os comentários sobre o post anterior sobre o MMA. Os diferentes tipos de envolvimento com a modalidade me ajudaram a pensar sobre o que escrevi (e deixei de escrever), mas também espero ter gerado algum tipo de reflexão. Vou deixar esse tema "em suspenso" para futuramente voltar com mais subsídios e diálogos. Aguardem!

 

Hoje compartilho algumas ideias sobre o papel do gestor e a relação eu-pessoa e eu-instituição.

 

Caso e contexto

 

Na última sexta feira, 28, o presidente da FIFA, Joseph Blatter, esteve na Inglaterra para as comemorações de 150 anos da federação de futebol inglesa e usou a viagem para visitar a Oxford Union, que é uma espécie de centro acadêmico da Universidade de Oxford [1].

 

Blatter iniciou o discurso no estilo "começo com minha difícil história de vida e mostro que lutei para chegar aqui". Em determinado ponto, ficou claro que ele tinha como proposta "colocar em dúvida" a visão dos presentes sobre ele e sobre a FIFA.

 

Sobre si mesmo, dizia que ele não é um parasita sugando dinheiro da FIFA. Ao invés de ditador, ele é um servo do futebol. Suas intenções são as melhores possíveis, porque ele entende que o futebol pode promover grandes mudanças no mundo - a ponto de considerar seu trabalho mais importante que do Primeiro Ministro inglês. Ao mesmo tempo, quando questionado sobre a condição de trabalho dos operários dos estádios que estão sendo construídos para a Copa do Mundo no Catar, ele afirma que algumas coisas fogem das possibilidades do futebol.

 

Já a FIFA, em seu discurso, não é uma instituição na qual ele se senta acariciando um gato persa, pensando em como forçar os países a sediar a Copa do Mundo e tomar conta de seu dinheiro. O futebol promove o progresso para as sedes, num "estímulo econômico mágico" que deveria convencer os brasileiros que protestam contra os altos gastos da preparação da Copa. E em lógica semelhante, a FIFA promove a modalidade internacionalmente quando usa os lucros da Copa do Mundo para promover o futebol em projetos sociais em locais necessitados. Numa outra referência ao Brasil, disse que o país terá muito trabalho em manter a excitação e o sucesso que a África do Sul promoveu em 2010.

 

Para finalizar, Blatter afirma: "Não interessa como somos percebidos. Não interessa o que pessoas com interesses ocultos ou pendências a serem resolvidas vão dizer. Não interessa o que aconteça. A FIFA irá perseverar na missão de colocar a Copa do Mundo para trabalhar para o bem, desenvolvendo o jogo de futebol e construindo um futuro melhor para todos, não para alguns. Gastando e redistribuindo recursos através do mundo para o futebol, ajudando comunidades que necessitam através do futebol, quebrando barreiras e agregando pessoas através do futebol. É isso que a FIFA e o Sepp Blatter sempre foram. Para o jogo. Para o mundo."

 

Comentários e análise

 

Muitas das suas afirmações são questionáveis, mas independente das opiniões pessoais ou das denúncias de terceiros, o que fica evidente aqui é a relação íntima que se estabelece entre Sepp Blatter e FIFA. Um grupo favorável a mudanças na FIFA, chamado ChangeFIFA comentou que no seu discurso, Blatter usa o pronome pessoal "eu" para se referir a FIFA. Mesmo pelo meu breve resumo, acima, é possível perceber isso.

 

As instituições não são feitas de uma matéria amorfa; elas são constituídas de pessoas que tomam decisões e tornam a organização o que ela é. Em diferentes graus e a partir de diferentes métodos, as instituições delegam a uma ou poucas pessoas a tarefa de representá-la publicamente - geralmente são os presidentes, secretários gerais ou diretores de alto escalão. Em alguns casos, a figura do porta-voz incorpora de tal forma esse papel que, para os outros e para si mesmo, é difícil distinguir a diferença entre o indivíduo e a instituição - o que no início chamei de eu-pessoa e eu-instituição. Não é difícil ver exemplos de gestores que assumem esse papel, dentro e fora do esporte, em diferentes graus: Eike Batista, Abílio Diniz, Steve Jobs, Silvio Santos, Dana White (para voltar ao MMA), etc.

 

Como a tarefa do porta-voz é representar a organização, não basta fazer e dizer o que convém a si mesmo, porque a instituição vem em primeiro lugar. Embora os olhares sejam focados em uma pessoa, essa pessoa responde pelos interesses e tem a responsabilidade de um grupo maior. E essa é uma via de mão dupla.

 

A posição e responsabilidade pode gerar vantagens, quando as coisas vão bem - que gestor não gostaria de ser capa de revista ou matéria de jornal para se tornar modelo de comportamento e gestão? Mesmo que todos saibam, no fundo, que os méritos são do coletivo, a lembrança e a imagem são focadas em uma única pessoa, que acaba por se tornar a referência. E aí não interessa a qualidade do engenheiro, se exalta a liderança do CEO -- mesmo que suas decisões não sejam as melhores.

 

Mas essa responsabilidade também pode gerar muitos problemas, quando é preciso responder pelos erros de pessoas das quais ele sequer tem contato ou controle - cito casos em que reitores de universidades federais respondem judicialmente por erros médicos nos hospitais universitários ou ainda que os pais precisam arcar com os prejuízos que os filhos menores de idade provocam quando cometem crimes ou se envolvem em acidentes de carro. Por mais que o "porta-voz" discorde das atitudes de seu grupo (família/instituição) e tenha feito seu máximo para evitar os problemas, a consequência dos atos e a resposta a eles está sob sua responsabilidade.

 

Nesse debate, a intenção não é julgar se Blatter é "inocente" ou "culpado", "sincero" ou "mentiroso". Muitas vezes o papel do gestor - e aí podemos estender para outras funções de liderança - é fazer a gestão de crises, uma resposta ao ambiente externo resolvendo ou se propondo a resolver o problema, mas que inevitavelmente passa pela manutenção da autoestima e da confiança do seu grupo de trabalho internamente. Assim, torna-se questionável a atitude de culpar uma pessoa por um erro e excluí-la de uma equipe (ver, por exemplo, a notícia sobre esse caso).

 

Como porta-voz, os gestores precisam estar preparados para lidar com momentos de glória e de luta. Nesse ponto, concordemos ou não com seus métodos, temos que admitir que Sepp Blatter tem sido um bom porta-voz para durar esses 15 anos à frente da FIFA.

 

ATUALIZAÇÃO: Nesse mesmo evento houve a "polêmica" declaração de Blatter sobre Cristiano Ronaldo, que gerou trocas de tweets e atingiu hoje a manchete de alguns portais. Esse não é exatamente o foco deste post, mas novamente evidencia a questão eu-pessoa e eu-instituição, já que o jogador levanta a possibilidade da preferência do presidente influenciar a escolha do melhor jogador do mundo.

 

Gostou? Quer comentar? Utilize o espaço abaixo pelo Facebook, ou entre em contato com a autora pelo e-mail bsalmeida@gestaoesporte.com e pelo Twitter @barbaracwb

 

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[1] As 15 páginas de discurso (em inglês) estão disponíveis no site da FIFA. Em reportagem, o Portal Terra, trouxe partes do discurso. Confira também como os alunos de Oxford noticiaram o fato, com outros detalhes da visita, que começou com uma mistura de vaias e aplausos (em inglês).

Imagem da capa: The Guardian, montagem de Jason Frogget

 

Sugestão de textos para aprofundamento:
Pierre Bourdieu. A economia das trocas linguísticas: o que falar quer dizer. São Paulo: Edusp, 2008.
Andrew Jennings. Jogo Sujo: o mundo secreto da FIFA. São Paulo: Panda Books, 2011.

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O UFC e o MMA: o que atrai no “esporte da vez”?

Nesse primeiro post temático, gostaria de falar de um assunto que tem levantado minha curiosidade, tanto pelo lado da Sociologia do Esporte quanto pela inovação e destaque que tem tido pelo lado da Gestão Esportiva: o The Ultimate Fighting Championship, ou mais conhecido como UFC.

 

UFC na cabeça: criança corta o cabelo em homenagem ao UFC 166

Se você não tem muita certeza do que é o UFC, um breve resumo "oficial": essa organização foi criada em 1993 com o intuito de promover e gerenciar uma modalidade de luta contendo técnicas de várias artes marciais (mixed martial arts - MMA). Os eventos teriam como diferencial a possibilidade de aglutinar competidores "completos", que possuem técnicas diversificadas de lutas como karatê, jiu-jitsu, boxe, kick-boxe e luta olímpica. A origem vem da modalidade brasileira "vale tudo", na qual o próprio nome já resume a proposta. Em 2001, a organização foi comprada pelos irmãos Fertitta - Frank e Lorenzo, e por Dana White, que "dá a cara" da organização, mediando as pesagens e entrevistando os lutadores após as principais lutas ainda no octógono (ringue em que o MMA acontece).

 

No curto intervalo de tempo desde sua aquisição, o UFC se declara como a "organização esportiva que mais cresce no mundo". Alguns números sustentam essa afirmação: são 30 eventos ao vivo por ano, transmitidos para 149 territórios em 30 idiomas. Dito com o evento mais vendido do mundo pelo pay-per-view, atinge cerca de 1 bilhão de residências. Além das lutas, a organização promove o reality show The Ultimate Fighter, que é o mais longo esportivo do gênero que está no ar. [1]

 

Entretanto, a modalidade não é vista com bons olhos por muitas pessoas. Ao colocar dois lutadores ou lutadoras no octógono, as lutas geralmente terminam: quando um(a) dos(as) competidores(as) leva um nocaute (desmaio ou perda grave de orientação) em virtude dos socos, chutes ou finalização; quando o(a) atleta que sofre a finalização desiste antes de perder a consciência ou por pontos; ou conforme decisão dos árbitros.

 

Dado essa característica que pode ser chocante para algumas pessoas, por que a modalidade tem alcançado tamanho sucesso? Gostaria de levantar aqui três fatores como hipóteses:

 

Violência atrai e é hipocrisia dizer que o MMA não é violento.


Mesmo quando não há controle nem preparação, muitas pessoas tendem a assistir confrontos entre duas ou mais pessoas. Foi assim com as brigas na escola e hoje com as versões gravadas dessas mesmas brigas que existem aos milhares no YouTube. Também é atrativo quando se trata de personagens fictícios, em que há ainda mais exemplos como os filmes de ação e com os jogos de videogame (aqui, confesso que eu me encaixo entre aqueles fãs de Mortal Kombat, que adorava descobrir os segredos para fazer truques contra o adversário já finalizado).

 

Nessa tentativa de explicação, trago a categoria catarse. Na Sociologia, basicamente, catarse significa extirpar, purificar ao colocar para fora uma tensão acumulada. É a ideia de um descontrole dentro de um controle. O MMA, aqui, serve como um local em que os espectadores acumulam a tensão e a excitação da luta mas sentem o alívio com o final dela, especialmente através do nocaute ou de golpes bem sucedidos. Esse raciocínio é semelhante ao torcedor que fica tenso, se emociona, grita e xinga numa partida de futebol. Num estádio, esse tipo de demonstração é permitida, diferentemente de outros ambientes sociais, como na escola ou no trabalho.

 

Geralmente, polêmicas são criadas entre lutadores. E eles podem resolver tais problemas "na mão".


Os lutadores fazem parte de uma indústria, passam por um processo bastante seletivo e quando alcançam o nível mais alto na competição, conhecem as regras: não basta simplesmente vencer, é preciso dar espetáculo, gerar expectativa, atrair o público e mantê-lo empolgado durante todos os rounds. As lutas principais normalmente possuem um enredo, um histórico de confrontos ou ainda troca de ofensas, olhares e palavras pouco amistosas durante os dias anteriores à luta, seja via Twitter ou durante a pesagem. Pareça ou não correto, muitas pessoas gostariam de poder resolver esse problema numa luta física. O caso mais típico talvez seja entre Anderson Silva, do Brasil, e Chael Sonnen, dos EUA. A rivalidade entre os lutadores gerou uma grande expectativa, especialmente para os brasileiros, que gostariam de ver uma resposta "à altura" para as ofensas que Sonnen fez ao Brasil e à família de Anderson Silva.

 

A ideia de insultar o país, a família ou a capacidade do adversário pode não constar na lista daquilo que muitas pessoas entendem como sendo o papel de um atleta, mas mobiliza identidades nacionais, masculinidades e a autoestima dos adversários e espectadores para conhecer o final do embate. E a história chega ao final com elementos dramáticos muito bem delineados, ou seja, com a aproximação, com os olhares, com as táticas, com avanços e retrocessos, com recuperações e com a celebração, para os vitoriosos.

 

O discurso do "trabalhe duro e acredite nos seus sonhos" também se apresenta aqui. E conquista.


Nas entrevistas após as derrotas, alguns atletas reconhecem o mérito do adversário, mas todos prometem voltar aos treinos, trabalhar duro, melhorar a preparação para futuros encontros ou mesmo para revanches. Esse é o discurso perfeito em sociedades ou ambientes em que a seletividade é grande e apenas algumas pessoas podem ser bem sucedidas. Vencer ou perder não passa a ser questionado em sua essência, mas passa a ser um problema pessoal: se você não venceu, foi porque não trabalhou duro o suficiente, não deu o melhor de si ou não acreditou no seu potencial.

 

Essa lógica de um sistema exclusivo, como o capitalista, encontra uma metáfora perfeita no esporte. Como o esforço parece essencialmente físico, teoricamente uma pessoa não precisaria de nada além da sua força de vontade para ser o melhor. Quem está mais envolvido com o esporte sabe que essa não é toda a verdade e inúmeros outros fatores - qualidade de treinamento, possibilidade de dedicação, acompanhamento multidisciplinar, acesso a substâncias nutricionais melhoradoras de performance (que não é somente, mas não exclui, o doping) - precisam ser levados em conta.

 

Pois bem, no último sábado, 19 de outubro, em Houston, Texas (EUA) aconteceu o UFC número 166. Na luta principal, o estadunidense Cain Velásquez fez a alegria de seus compatriotas ao dominar a luta com o brasileiro Junior "Cigano" dos Santos. Provavelmente não só pelo apelo da importante luta do compatriota, mas os mais de 17 mil espectadores geraram US$ 2,5 milhões (ou R$ 5,4 milhões) em arrecadação de ingressos, a segunda maior renda da Toyota Arena, onde jogam os Houston Rockets e diversos concertos musicais acontecem [2].

 

Mais um bem sucedido evento em público demonstra que o sucesso do UFC precisa ser estudado como um caso importante para a gestão, ainda mais quando consideramos as polêmicas que ele levanta por ser designado como esporte.

 

E para você, que fatores são os mais atrativos no UFC? Ou os fatores que levantei não são atrativos para você? Sua opinião é muito bem-vinda!

 

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Referências

[1] Sobre o UFC. Disponível em: http://br.ufc.com/discover/ufc

[2] Allan Brito: UFC em Houston supera show da Madonna, mas fica atrás de Rolling Stones. Esporte, Portal Terra. 21 de outubro de 2013. Disponível em:  http://esportes.terra.com.br/lutas/mma/ufc-em-houston-supera-show-da-madonna-mas-fica-atras-de-rolling-stones,ee973b4d755d1410VgnVCM20000099cceb0aRCRD.html

 

Sugestão de textos para aprofundamento:

- Raúl Sánchez García & Dominic Malcolm. Decivilizing, civilizing or informalizing? The international development of Mixed Martial Arts. International Review for the Sociology of Sport, vol. 45, n. 1, pp. 39-58, 2010.

- Samuel Oliveira Thomazini, Cláudia Emília Aguiar Moraes & Felipe Quintão Almeida. Controle de si, dor e representação feminina entre lutadores(as) de Mixed Martial Arts. Pensar a prática, v. 11, n. 3, pp. 281-290, 2008. Disponível em: http://www.revistas.ufg.br/index.php/fef/article/view/4992/4974

 

Fotos:

Getty Images/Portal Terra

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Sociologia do esporte: mas é só teoria ou tem prática?

Pode ter certeza que não te julgarei se você estiver se perguntando nesse momento qual é a relação da Sociologia com a Gestão do Esporte. Ou ainda, antes disso, o que de "sociológico" o esporte tem. Talvez o melhor ponto de partida seja começar com minha própria experiência nessa área de estudo.


Durante meu terceiro ano de graduação em Educação Física, quando cursei a disciplina de Sociologia do Esporte, passei a ver o esporte de outra maneira. Ao ter os subsídios iniciais para pensar o esporte sociologicamente, passei a interpretar as notícias que assistia na televisão e a refletir sobre os comentários que as pessoas faziam sobre o esporte e atividades físicas nos meus diferentes círculos sociais.


Naquela época, lembro-me que uma reportagem me chamou a atenção. Um vídeo do então jogador do Corinthians, Carlos Tevez, cantando num show musical na Argentina circulava na internet. Essa notícia, que provavelmente passou despercebida pela maioria das pessoas, levantou em mim algumas curiosidades: por que a mídia estava abordando aquele fato? Por que o jogador, aparentemente, não deveria estar lá? E por que foi importante ressaltar que o nome da banda chamava-se "Los Palmeras"?


Essas perguntas não têm nada de extraordinário, mas apontam para uma mudança fundamental de comportamento: a reflexão a partir do cotidiano. Entendo que talvez uma das tarefas mais importantes da Sociologia seja fazer com que nós pensemos acerca da realidade em que vivemos, nas diferentes esferas da vida. No esporte, não é diferente, mesmo que estejamos envolvidos nele nos momentos de lazer - como praticantes, espectadores ou telespectadores; ou de profissão - como atletas, técnicos e gestores.


A Sociologia oferece conceitos, teorias e métodos para estudar e interpretar os diferentes fenômenos sociais. O esporte se caracteriza como um desses fenômenos quando entendemos que ele é uma construção social: algo criado pelas pessoas através da interação entre elas, que influencia e é influenciado por outros elementos da vida, como a economia, a política e a cultura.


Conceitos e teorias serão extremamente úteis nesse processo, sem perder de vista que eles nada são senão estiverem conectados com o dia-a-dia. Por isso, todas as terças feiras estaremos juntos nesse espaço para interpretar algumas situações relacionadas a Gestão do Esporte pelo olhar da Sociologia. Ou como a Sociologia do Esporte pode nos auxiliar para pensar em novas formas de Gestão.


Os temas e as possibilidades são muitas, por isso conto com a participação de vocês como leitores, comentadores e motivadores de debates. Por isso, espero encontrar vocês em breve!

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